sábado, 26 de maio de 2018

CARACTERÍSTICAS  DA  MAGIA  ÁRABE

   Olá pessoal! Nesse post vou falar um pouco sobre as características típicas da tradição oculta dos árabes. O sistema mágico árabe possui algumas características muito próprias, mas também certas semelhanças com sistemas de outros povos.
   Um dos traços mais marcantes da magia árabe é ligação com os seres espirituais conhecidos como djinns. Os magos árabes já tinham essa ligação com esses seres antes do surgimento de Maomé e o islã, e, depois do islã essa ligação continuou a existir. Os magos árabes antigos possuíam fórmulas conjuratórias para invocar os djinns e obter informações e favores deles. O próprio Alcorão possui versículos que podem ser usados para invocá-los, embora seja pouco recomendável para principiantes. Boa parte dos manuais de magia árabes possuem fórmulas conjuratórias. O "conjurador" invoca um djinn e impõe sua vontade sobre ele. Esse djinn trás outro mais forte que o conjurador domina. Esse trás outro djinn mais forte e assim continua até o conjurador conseguir exercer sua vontade de modo bastante temeroso sobre esse último djinn, é no limite. Por essa razão a conjuração nunca é recomendada para principiantes. Outros métodos de domínio sobre os djinns são baseados na tradição "salomônica" ou seja: remetente ao rei Salomão. A tradição oculta reconhece Salomão como o maior perito em exercer poder sobre tais entidades. Na verdade os árabes herdaram as narrativas mais belas sobre as façanhas mágicas de Salomão. O Alcorão menciona várias realizações de Salomão exercendo poder sobre os djinns os quais ele empregou na construção do templo de Jerusalém e muitas outras tarefas. Se não fosse por Salomão as narrativas das "Mil e Umas Noites" seriam bem menos interessantes, pois, a história de Aladim e a lâmpada mágica se deve a Salomão (o "gênio" preso na lâmpada é um djinn) e o "tapete mágico" também vem das narrativas sobre Salomão pois as crônicas contam que ele e membros de sua corte viajavam sobre um tapete que os levavam pelos ares onde quisessem, não que o tapete tivesse capacidade própria de voar como o da animação da Disney, mas eram djinns específicos que o suspendia e levava pelos ares. Há de fato técnicas dos magos árabes para se prender um djinn em uma garrafa. 
   Um dos símbolos muito usados em várias partes do Oriente Médio é a chamada "mão de Fátima", "hamsá" ou "mão hamesh". O uso de um símbolo de uma mão aberta como proteção contra o "olho gordo", "inveja" vem desde tempos antigos. Hoje tanto judeus quanto árabes fazem uso de muitas variações desse símbolo. Um exemplo de "mão de Fátima":
   Muito usado na tradição oculta árabe são os chamados "quadrados mágicos" são conjuntos de quadrados contendo em cada quadrinho números, e alguns casos letras. As letras e números não são colocadas de modo aleatório nos quadrados, são colocados de modo a soma do valor desses números e letras por coluna ou linha dar um número com significado específico. São como "pantáculos" tem funções específicas e a tradição árabe possui riquíssimas variações deles veja alguns exemplos:





   A chamada "magia do nó" já era conhecida a muito tempo pelos árabes antes do islã. Há registros de "feitiços" feitos por feiticeiras judias contra Maomé usando a "magia do nó". Essa técnica consiste em pegar um cordão e a cada nó dado nesse cordão é "atado" um malefício se assoprando três vezes. Outros detalhes como algum objeto pessoal da vítima alvo ou material genético, cabelo por exemplo é incluído nesse "feitiço" e escondido em um poço. Maomé realmente sofreu as consequências desses malefícios, mas, conseguiu encontrar o poço onde tal malefício tinha sido ocultado e o desfez. É contra a "magia do nó" que o capítulo 113 do Alcorão intitulado "A Alvorada" pede proteção, veja esse capítulo:

"Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
 Dize: "Procuro refúgio junto ao senhor da Alvorada
 Contra o mal das criaturas que Ele criou
 Contra o mal das trevas quando se estendem
 Contra o mal das feiticeiras quando sopram sobre seus nós,
 Contra o mal do invejoso quando inveja."

   O sopro faz parte das práticas da magia árabe, na magia árabe se considera que o sopro contém a vontade de quem está realizando tal ato, o sopro contém a energia do operador por isso tem que ser assoprado com vontade. Além disso, o número três tem significado extremamente relevante nessa tradição, representa a confirmação de algo; princípio, meio e fim. Por isso em seus atos os adeptos árabes assopram três vezes, isso é mostrado no filme "Constantine" quando o personagem Papa Meia Noite interpretado por Djimon Hounsou assopra três vezes em determinados atos.Também nas técnicas de exorcismo árabe o exorcista costuma assoprar na narina da vítima que está sofrendo possessão. Existe na tradição árabe o método de exorcismo considerado "ilegal" ou "proibido" e o método "legal", "permitido". No método "ilegal" de exorcismo o exorcista conjura outro djinn para forçar aquele que possui a vítima a sair. Esse método é considerado feitiçaria ("ruqya" em árabe) por isso é proibido. Já no método legal o exorcista (que é chamado de "shij" em árabe) exorta o djinn a sair do corpo da vítima e pode até mesmo bater na vítima pois se considera que é o djinn que sofrerá os golpes. Certos versículos do Alcorão especialmente usados para exorcismos são recitados sobre a vítima. Também se costuma moldar pedaços de pão na forma das letras desses versículos para a vítima comer pois se considera que as letras tem o mesmo poder das palavras faladas. Um tipo específico de exorcista do mundo árabe são os chamados "rifai" os rifais seguem uma tradição que remonta ao antigo Egito. Eles entram nas casas e entoam certas recitações. Os tipos específicos de entidades saem então da casa espontaneamente como serpentes ou escorpiões. 
   Existem grupos específicos dentro da tradição muçulmana dedicado ao misticismo, grupos como os sufis e os dervixes da Turquia. Os dervixes da Turquia são mais reconhecidos aqui no Ocidente por causa das cerimônias na qual eles dançam rodopiando. O propósito dessa cerimônia é o adepto se induzir a estados alterados de consciência através do qual pode realizar os feitos ocultos:

   Agora sobre os sufis. Os ensinamentos do sufismo são chamados de "tassawwuf". Os sufis não são monges que vivem isolados da sociedade, inclusive esse comportamento é condenado pelo sufismo. Eles são membros ativos da sociedade comum. Quem apresentou muitas informações esclarecedoras sobre o submundo do sufismo foi o pesquisador e autor Idries Shah (1924-1996). Shah que é de origem afegã e conheceu bem essas tradições e diz que o sufismo é uma força poderosa no mundo embora discreta, praticamente invisível. Ele afirma que as ordens do sufismo são organizadas de modo hierárquico e que existem representantes deles espalhados em várias partes do mundo sendo que o líder apenas poucos conhecem, ele costuma entrar em contato com os outros de modo telepático. Entre as façanhas que os adeptos sufis podem realizar estão a "anulação do tempo". Para eles o tempo não tem significado real, e, quando em estados alterados de consciencia, em estado de êxtase, são capazes de induzir na mente de outros projeções de experiências como sonhos porém altamente realísticas na qual a pessoa sente que está vivendo anos de sua vida, porém quando volta a si percebe que não se passou sequer um segundo. É narrado histórias de que o mago escoçês Michael Scot (1175-1235) induziu pessoas a experiências assim. Ele é conhecido como um estudioso escoçês que aprendeu essas técnicas de magos árabes quando estudou nas universidades da Europa. É dito que os grandes adeptos sufis podem se encontrar em outro plano no qual o tempo não existe, conversam por horas, depois retornam a nosso plano e tempo algum se passou em nossa marcação. Um dos meios usado pelos sufis para se induzir a esses estados de êxtase são os chamados "dhikr" que significa "lembrança" ou "invocação de Deus". Um exemplo de dhikr: "não existe outro deus a não ser Deus (Alá)" tal frase é repetida muitas vezes de modo automático verbalmente ou mentalmente até a mente entrar nesse estado específico através do qual o adepto pode realizar os feitos extraordinários. A "viagem astral" também chamada de "projeção de consciência" ou "dobra" também faz parte das técnicas dos sufis. Idries Shah chama a ordem sufi de "governo oculto" pois é poderosa embora discreta. Basta mencionar que Blavatsky (falei sobre ela no post desse mesmo blog intitulado "OCULTISTAS NOTÁVEIS-7") dizia que era uma ordem sufi que estava de posse da "verdadeira cabala" diferente da cabala conhecida pela maioria dos adeptos ocidentais judeus e cristãos cujo conhecimento estava sintetizado no que ela chamava "Livro Caldeu dos Números". Outro adepto, Gurdjieff (sobre o qual falei no post desse mesmo blog intitulado "OCULTISTAS NOTÁVEIS-3") também menciona uma poderosa ordem de características sufi que ele chama de "Irmandade de Sarmoung" que vem preservando conhecimentos ocultos desde os tempos de Zaratustra. Muito dos próprios ensinamentos de Gurdjieff tinham características sufis. 
   Para encerrar mencionarei duas importantes contribuições dos adeptos árabes para duas áreas do oculto: a alquimia e a astrologia. Com relação as contribuições do misticismo árabe para a alquimia basta mencionar que o aparelho usado para a destilação, para se extrair o alcool chamado alambique foi inventado pelos árabes. A própria palavra "alcool" é de origem árabe. Como a religião muçulmana proibe seus adeptos de ingerir bebida alcoólica eles associaram a substância a algo negativo, a palavra "alcool" vem de "Algol" que significa "cabeça do demônio" é o nome da estrela da constelação de Perseu que corresponde a cabeça da medusa que ele segura. Além disso, foi graças a difusão de escritos de autores árabes na Europa como Geber (721-815) e Avicena (980-1037) que a alquimia foi difundida por lá. Com relação a contribuição dos adeptos árabes na área da astrologia mencionarei que muitas estrelas foram observadas e nomeadas por astrólogos/astrônomos árabes por isso receberam nomes árabes como Aldebarã da constelação de touro e a já mencionada estrela Algol da constelação de Perseu. Essas são algumas das características do ocultismo árabe que quis registrar.   



     

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